"LEVANTE,
DESPERTE, E NÃO PARE ATÉ ALCANÇAR A META!
Swami
Vivekananda
Um
gênio espiritual de grande intelecto e poder, que durante sua
curta vida, 1863-1902, realizou intenso trabalho e dedicação
a espiritualidade; Narendra Nath nasceu na família Datta de
Calcutta. Desde Cedo o jovem Vivekananda abraçou as diversas
filosofias agnósticas e científicas do pensamento Ocidental.
Ao mesmo tempo o veemente desejo de conhecer a Verdade, levou-o a
questionar os santos e sábios a fim de saber se afinal eles
haviam visto Deus.
Sua
busca teve fim ao encontrar Ramakrishna, que lhe respondeu sem hesitar:
"Sim, já vi Deus. Eu O vejo como vejo você aqui,
só que mais claramente... Deus pode ser realizado. Pode-se
vê-Lo e conversar com Ele, assim como o estou fazendo com você".
Torna-se
então discípulo de Ramakrishna, que dissipou
suas dúvidas, dando-lhe a visão de Deus e a
mais elevada realização espiritual.
O jovem Narendra vem então
a ser conhecido como Vivekananda, o
sábio e profeta que viria a divulgar a grande mensagem do Mestre.

Vivekananda
no Parlamento das Religiões em
Chicago em 11 de setembro de 1893
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Depois
da morte de Ramakrishna, Vivekananda renunciou ao mundo e peregrinou,
como monge errante, por toda a Índia. Sentiu-se profundamente
tocado pela riqueza espiritual de seu país, mas também
pela extrema pobreza material de seu povo. Isso o levou a buscar
ajuda material do ocidente para minorar esse sofrimento. Diante
da oportunidade de representar o hinduísmo no Parlamento
das Religiões de Chicago, em 1893, sentiu que esse era
o momento de dar início à sua missão.
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Em
virtude da universalidade e do caráter inclusivo de seus ensinamentos,
encontrou ampla receptividade de uma audiência que, por sua
vez, estava ávida por ensinamentos espirituais genuínos
e não dogmáticos. Assim, Vivekananda conquistou instantânea
notoriedade na América do Norte. Por alguns anos divulgou a
filosofia vedanta nos Estados Unidos e na Inglaterra. Em seu retorno
à Índia, em 1897, fundou a Ordem Ramakrishna, cujo lema
é: "Buscar a própria realização espiritual
e servir a Deus no homem".
SUA
VIDA
Intodução
de Christopher
Isherwood ao
Livro de Vivekananda "O Que é Religião".
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Cedo
numa manhã de setembro de 1893, a senhora George W. Hale olhou
pela janela de sua bonita casa na Avenida Dearborn em Chicago e viu,
sentado na calçada oposta, um jovem de aparência oriental,
a cabeça coberta por um turbante, vestindo o hábito
ocre de monge hindu.
Felizmente
a senhora Hale não era uma mulher convencional. Não
chamou a polícia para dizer ao es-trangeiro que se retirasse
dali, nem mesmo chamou os
empregados para que fossem perguntar o que ele queria. Notou que ele
não havia feito a barba e suas roupas estavam amassadas e sujas,
mas percebeu também o ar de realeza que o envolvia. Perfeitamente
calmo, ele sentava ali, meditativo, sereno. Não aparentava
ter perdido o rumo.
(Na verdade, acontecia exatamente o contrário, não se
perdera;
acabava de entregar-se à vontade de Deus).
Subitamente,
a senhora Hale teve uma intuição brilhante; inteligentemente,
saiu de sua casa, atravessou a rua e perguntou com a maior cortesia:
— O senhor é um dos delegados ao Parlamento das Religiões?
Recebeu
a resposta com igual gentileza, em inglês fluente e culto. O
estrangeiro apresentou-se como Swami Vivekananda e disse que, de fato,
viera a Chicago para assistir às reuniões do Parlamento,
apesar de não ser um representante oficial. Chegara da Índia
em meados de julho para descobrir que a abertura do Parlamento havia
sido adiada para setembro. Seu dinheiro estava acabando e alguém
o aconselhara a procurar um alojamento mais barato em Boston, para
onde ele fora de trem. Durante a viagem conheceu uma senhora que o
convidou a ficar em sua casa, que era chamada de Breezy Meadows.
Desde
então, dera palestras em várias igrejas e grupos sociais,
respondera a muitas perguntas tolas sobre seu país e, por causa
de sua roupa, fora ridicularizado por crianças. Dois dias antes,
o professor J.H. Wright, que ensinava grego na Universidade de Harvard,
dera-lhe uma passagem de volta a Chicago, garantindo-lhe que seria
bem recebido no Parlamento, apesar de não ter convite: —
Pedir-lhe credenciais, Swami, seria o mesmo que perguntar ao sol se
ele tem permissão para brilhar.
O
professor também lhe dera o endereço do comitê
de recepção dos delegados ao Parlamento; Vivekananda,
porém, o havia perdido na viagem para Chicago. Ten-tara pedir
informações a pedestres; infelizmente a esta-ção
de trem situava-se em um bairro onde o idioma predominante era o alemão
e o Swami não conseguira fazer-se entender. Como a noite se
aproximava, sem ter como obter ou usar o guia da cidade, ele estava
impossi-bilitado de encontrar um hotel apropriado. Pareceu-lhe melhor
dormir em um vagão grande e vazio, na área da ferrovia
destinada aos trens de carga. Na manhã seguinte, com fome e
amarrotado acordou, conforme disse, “sentindo cheiro de água
fresca” e caminhou em sua direção, chegando às
margens do Lago Michigan. As suntuosas mansões situadas em
Lake Shore Drive, porém, nada tinham de hospitaleiras. Batera
à porta de várias delas e fora rudemente despachado.
Afinal, após muito
andar, parou naquela calçada decidido a não ir adiante
e sentou-se para aguardar o que Deus lhe tivesse reservado. Agora,
concluiu Vivekananda, “Que prodigioso socorro! Como são
notáveis os caminhos do Senhor!”
A
senhora Hale deve ter achado graça no que ouviu, pois Vivekananda
sempre relatava suas aventuras e desventuras com bom humor, e suas
risadas eram con-tagiantes. Os dois entraram juntos na casa e o Swami
foi convidado a lavar-se, barbear-se e tomar o café da manhã.
A seguir, a senhora Hale acompanhou-o à sede do comitê
onde providenciaram seu alojamento com os outros delegados orientais
ao Parlamento.
A
idéia de realizar um Parlamento de Religiões em Chicago
fora concebida pelo menos cinco anos antes, em acréscimo ao
projeto–mor da Exposição Mundial, [World’s
Columbian Exposition] destinada a comemorar o quarto centenário
do descobrimento da América por Colombo. A exposição
foi projetada para exibir o progresso material do homem ocidental,
especialmente nos campos da ciência e tecnologia. Concordou-se,
entretanto, que todas as formas de progresso deveriam ser representadas,
e vários congressos foram efetuados tratando de temas como
progresso feminino, imprensa, medicina e cirurgia, temperança,
comércio e finanças, música, governo e reforma
jurídica, ciência econômica e, estranho como possa
soar aos ouvidos de hoje, repouso aos domingos. Citando a linguagem
oficial do comitê, como “a fé em um poder divino
tem sido, como o sol, uma potência propiciatória de luz
e frutos no desenvolvimento intelectual e moral do homem”, teria
de haver, também, um Parlamento de Religiões.
Pode-se
sorrir de toda esta pompa mas, convenha-mos, a inclusão de
tal Parlamento foi um ato histórico de liberalismo. Provavelmente
pela primeira vez na história do mundo, representantes das
principais religiões reuniram-se em um local com liberdade
para expressar suas crenças. Paradoxalmente, os liberais mais
genuínos entre os organizadores foram os agnósticos,
interessados apenas em promover a tolerância inter–religiosa.
Os zelosos cristãos foram menos imparciais, como era de esperar-se.
Segundo as palavras de um padre católico, “Não
é verdade que todas as religiões sejam igualmente boas;
também não é verdade que todas as religiões,
salvo uma, não prestem. O cristianismo do futuro, mais justo
que o do passado, designará a cada religião seu lugar
no trabalho de preparação evangélica para abolir
o paganismo, conforme salientaram os antigos doutores da Igreja, trabalho
que ainda não se completou.” Em suma, o paganismo é
útil à preparação para o cristianismo.
O
que realmente teve importância foi o líder dos católicos
americanos, o Cardeal Gibbons, ter aceitado o convite para presidir
o Parlamento. Aceitação esta extre-mamente valiosa,
porque o Arcebispo de Canterbury se havia recusado a comparecer, objetando
que o simples fato da existência desse Parlamento implicava
a igualdade de todas as religiões. Além dos cristãos,
estavam representados budistas, hindus, muçulmanos, judeus,
confucionistas, shintoístas, zoroastrianos e diversas seitas
e grupos menores. Vivekananda, certamente, poderia ter sido considerado
membro da delegação hindu mas, como veremos, ele representou
de fato, algo muito mais amplo do que qualquer seita, a antiqüíssima
doutrina hindu da universalidade da verdade espiritual.
Na
abertura do Parlamento, na manhã de onze de setembro, Vivekananda
imediatamente chamou a atenção como uma das figuras
mais impressionantes sentadas na tribuna, com sua esplêndida
túnica, o turbante amarelo e a bela face cor de bronze. Suas
fotografias surpreendem-nos pelo tamanho de suas feições
— lembrando um leão — o nariz proeminente, os lábios
expressivos, os grandes e escuros olhos ardentes. Testemunhas oculares
mostraram-se impressionadas com a majestade de sua presença.
Apesar do físico atlético, sua estatura era mediana,
sem que isso o despojasse de uma aura de grandeza. Disseram que, apesar
de seu tamanho, ele se movia com natural graça masculina, “como
um grande felino,” segundo a expressão de uma senhora.
Nos Estados Unidos era freqüentemente tido como um príncipe
ou aristocrata indiano, em virtude de seu sereno mas afirmativo ar
de comando.
Outros
comentaram seu olhar de “satisfação interior.”
Parecia capaz de extrair forças de reservas internas a cada
momento. Em seus olhos havia uma cintilação bem–humorada,
observadora, que sugeria um calmo e divertido distanciamento de espírito.
Todos eram receptivos à sua voz extraordinariamente profunda,
se-melhante ao belo tanger de um sino; certas vibrações
causavam uma misteriosa excitação psíquica entre
os ouvintes. Certamente tinham a ver com a espantosa rea-ção
do auditório ao primeiro discurso de Vivekananda.
Durante
a primeira sessão matinal, ao chegar sua vez de falar, Vivekananda
desculpou-se e pediu tempo. Mais tarde, em carta a amigos na Índia,
confessou ter sofrido de medo de palco. Todos os outros delegados
haviam preparado discursos; ele, nenhum. Esta hesitação,
po-rém, só fez aumentar o interesse geral por ele.
Afinal,
durante a tarde, Vivekananda ergueu-se. Com sua voz profunda, disse:
— Irmãs e irmãos da América — e a
audiência inteira, várias centenas de ouvintes, rompeu
em aplausos, saudando-o freneticamente duran-te dois minutos. Até
aquele momento o público estivera agradavelmente disposto.
Muitos dos palestrantes ha-viam sido saudados com entusiasmo e todos
foram recebidos com cortesia. Porém, nada acontecera antes
que se comparasse a essa demonstração. Com certeza,
a grande maioria das pessoas ali presentes não saberia dizer
porque ficara tão comovida. Nem a aparência, nem a voz
de Vivekananda poderiam explicar completamente o ocorrido. A multidão
tem sua própria e misteriosa espécie de telepatia subconsciente
e deve ter sentido, de algum modo, que estava em presença do
mais invulgar dos seres, um homem cujas palavras expressam exatamente
o que na verdade ele é. Quando Vivekananda disse: — Irmãs
e irmãos da América, — ele considerava, de fato,
aqueles homens e mulheres à sua frente, seus irmãos
e irmãs. A desgastada frase de retórica tornou-se pura
verdade.
Tão
logo os aplausos serenaram, Vivekananda re-tomou a palavra. Fez um
discurso bastante curto, falando a favor da tolerância universal
e enfatizando o fundamento comum a todas as religiões. Ao termi-nar,
novamente aplausos em massa, estrondosos. Uma senhora presente recordou-se
mais tarde: “Vi filas de mulheres caminhando sobre os bancos
para aproximar-se dele e disse para comigo: bem, meu jovem, se con-seguir
resistir a esse assédio, você é, realmente, um
Deus!” Tais investidas viriam a tornar-se usuais em sua vida
nos Estados Unidos.
Vivekananda
pronunciou vários outros discursos nos dias subseqüentes,
inclusive uma importante declaração sobre a natureza
e os ideais do hinduísmo. Quando o Parlamento se encerrou ele
era, incomparavelmente, o orador mais popular. Teve sua agenda repleta
de convites sociais. Uma agência ofereceu-se para organizar-lhe
uma turnê, e ele aceitou.
Naquele
tempo, quando a fronteira para o oeste era ainda uma memória
viva, não era preciso afastar-se das grandes cidades a fim
de encontrar o mundo pioneiro do espetáculo apresentado debaixo
da tenda de lona. Políticos, filósofos, escritores,
e até a grande Sarah Bernhardt, todos eram mais ou menos tratados
como atrações circenses. Ainda hoje o título
de swami associa-se a truques teatrais; poucos americanos sabem que
os que têm direito de chamar-se swamis fizeram votos monásticos
formais, e que swami é um título tão digno de
respeito quanto o de padre na Igreja Católica. Vivekananda
chamava a si mesmo de swami. Por isso, aos olhos do público,
era visto como um artista de teatro de variedades. Ele podia contar
com aplausos, mas não podia esperar que respeitassem sua privacidade.
Foi obrigado a enfrentar a mais grosseira publicidade, a curiosidade
mais brutal, a hospitalidade mais perdulária, porém
desumana e absolutamente exaustiva, que o exauriu e por fim arruinou
sua saúde. Contudo, na época, ele parecia estar à
altura das circunstâncias e, aparentemente, divertia-se com
elas. Era tão franco que chegava quase a ser rude; jamais deixava
uma pergunta sem resposta e nunca perdia o equilíbrio, mesmo
quando rugia com momentânea indignação às
perguntas idiotas sobre seus compatriotas “pagãos.”
Ninguém riria ou caçoaria mais de Vivekananda do que
ele próprio, pois não havia ninguém melhor do
que ele para apreciar a rica e sutil pilhéria de sua presença
em tais ambientes — um monge pregando num circo!
Vivekananda
viera aos Estados Unidos para falar de sua terra natal. Queria expor
aos americanos a pobreza da Índia e pedir ajuda. Simultaneamente
trazia uma mensagem ao Ocidente. Pedia aos ouvintes que abandonassem
o materialismo e aprendessem com a antiga espiritualidade dos hindus.
Trabalhava pelo intercâmbio de valores. Reconhecia grandes virtudes
no Ocidente — energia, iniciativa, coragem — que faltavam
aos indianos. Não viera aos Estados Unidos com o intuito de
fazer críticas negativas. Durante os primeiros dias de sua
visita, quando foi levado a conhecer uma prisão em Boston,
sua reação foi a seguinte:
Como são tratados com benevolência! Os presos são
reabilitados e enviados de volta como membros úteis da sociedade.
Que grandeza, que maravilha, é preciso ver para crer! Quanto
meu coração doeu ao pensar na classe baixa da Índia,
nos pobres que não têm oportunidade, não têm
salvação, não têm como subir na vida. Eles
se degradam cada vez mais, a cada dia.
Entretanto,
ele ofendeu muitos com sua franqueza.
— Em Nova York — dizia sorrindo — esvaziei auditórios
inteiros. — E não se admirem! Aos ouvidos de fundamentalistas
rígidos, seus ensinamentos sobre a divindade essencial do homem
devem ter soado como uma grande blasfêmia, especialmente porque
eram apresentados com frases pitorescas, que mesclavam seriedade e
troça: “Contemple o oceano e não a onda; não
veja diferença entre a formiga e o anjo. O verme é irmão
do Nazareno... Obedeçam às Escrituras até serem
bastante fortes para passarem sem elas... Todo homem nos países
cristãos tem uma enorme catedral na cabeça e, acima
dela, um livro... O âmbito dos ídolos vai da madeira
e da pedra a Jesus e Buda...”
Vivekananda
ensinou que Deus está dentro de nós e que nascemos para
redescobrir nossa própria natureza divina. Sua história
favorita versava sobre um leão que pensava ser uma ovelha,
até outro leão mostrar-lhe seu reflexo numa lagoa. —
E vocês são leões — dizia aos ouvintes —
vocês são almas puras, infinitas e perfeitas... Aquele
a quem vocês suplicam e rezam nas igrejas e templos... é
seu próprio Self. — Ele foi o profeta da autoconfiança,
da busca individual e do esforço.
Falou pouco dos cultos hinduístas — a devoção
espe-cífica a Rama, Kali, Vishnu ou Krishna, praticada pelos
devotos das diversas seitas. Só ocasionalmente ele se referia
a seu culto pessoal e revelava que ele também tivera um Mestre,
que considerava uma encarnação divina — um Mestre
que se chamava Ramakrishna, falecido há menos de dez anos,
a quem conhecera intimamente (veja a última parte deste livro).
Vivekananda
foi um grande devoto, mas não proclamava a todos sua devoção.
Sua recusa em fazê-lo era uma decisão fundamentada. Após
seu regresso à Índia, falando de seu trabalho nos Estados
Unidos, ele disse: — Se tivesse pregado sobre a personalidade
de Ramakrishna, poderia ter convertido metade do mundo. Porém
esse tipo de conversão dura pouco. Em vez disso, ensinei os
princípios de Ramakrishna. Se as pessoas aceitarem esses princípios,
eventualmente aceitarão a perso-nalidade por trás deles.
Na
época do Parlamento das Religiões, Vivekananda tinha
apenas trinta anos. Nasceu em Calcutá, em doze de janeiro de
1863. Seu sobrenome era Datta e seus pais deram-lhe o nome de Narendranath,
Naren, para encurtar. Como monge, perambulou pela Índia usando
vários nomes; adotou o nome monástico de Vivekananda
pouco antes de embarcar para os Estados Unidos, por sugestão
do Marajá de Khetri que, juntamente com o Marajá de
Mysore, pagou as despesas da viagem.
Viveka
é uma palavra sânscrita que significa discriminação,
mais especificamente no sentido filosófico de discernimento
entre o real (Deus) e o irreal (os fenômenos reconhecidos por
nossas percepções sensoriais). Ananda significa felicidade
divina, ou paz obtida por meio da iluminação; o sufixo
é freqüentemente agregado ao nome monástico que
o religioso adotou.
Na
adolescência Naren freqüentou um colégio em Calcutá.
Era um jovem de bonita aparência, atlético e extremamente
inteligente. Ótimo cantor, tocava vários instrumentos.
Nessa ocasião, já exercia grande poder de liderança
entre os rapazes de sua idade. Seus professores estavam certos que
ele estava destinado a ter um futuro brilhante.
Naquele
tempo, Calcutá era o principal porto de entrada das idéias
e influências culturais européias; nenhum jovem indiano
ficava imune a elas. Para enfrentar o desafio do cristianismo missionário,
formou-se um movimento para modernizar o hinduísmo —
extingüir antigos rituais e práticas clericais, emancipar
as mulheres e abolir o casamento de crianças — que se
denominava Brahmo Samaj. Naren filiou-se, mas logo achou superficiais
seus objetivos; não satisfaziam suas necessidades espirituais.
Leu Hume, Herbert Spencer e John Stuart Mill, passando a considerar-se
agnóstico. Seus pais insistiam em casá-lo; recusou-se,
sentindo que devia manter-se casto e livre para devotar-se de corpo
e alma a uma grande causa. Qual? Não sabia até então
exatamente qual. Ainda buscava alguém ou algo em que pudesse
acreditar de maneira irrestrita. Por enquanto, seu espírito
inquieto e corajoso ansiava pelo calor da ação.
Por
coincidência, um parente de Naren era devoto de Ramakrishna
e o diretor de seu colégio, o professor Hastie, era um dos
poucos ingleses que havia conhecido Ramakrishna. O que estes dois
disseram a respeito dele despertou a curiosidade de Naren que, em
novembro de 1881, foi convidado a cantar em uma casa onde Ramakrishna
se encontrava. Tiveram uma conversa rápida e Ramakrishna convidou-o
a vir visitá-lo no templo de Dakshineswar, onde vivia, às
margens do Ganges, a alguma distância de Calcutá. Desde
o primeiro momento,
a
personalidade
de Ramakrishna despertou o interesse de Naren, deixando-o perplexo.
Nunca antes em sua vida encontrara alguém como esse homem delgado,
de barba, que aparentava ter quarenta e poucos anos e tinha a inocente
sinceridade de uma criança. Parecia envolto em uma aura de
intenso deleite, e vivia perpetuamente falando alto e irrompendo em
canções que expressavam sua alegria e o arrebatamento
que sentia por Deus sob a forma de Mãe Kali, que era para ele,
evidentemente, uma presença viva. A conversa de Ramakrishna
misturava sutileza filosófica com prosaicas parábolas.
Falava com leve gagueira, no dialeto de seu vilarejo natal, em Bengala
e, às vezes, empregava termos rudes de ambiente rural com a
franqueza singela de um camponês. Por essa época sua
fama espalhara-se e muitos ilustres habitantes de Bengala visitavam-no
com freqüência, inclusive Keshab Sen, o líder do
Brahmo Samaj. Não obstante seus próprios princípios
reformistas, Keshab amava e admirava Ramakrishna, um hindu ritualista
e ortodoxo que considerava as preocupações de Keshab
com reformas sociais um passatempo divertido e necessariamente infrutífero.
O mundo, de acordo com um dito popular hindu, assemelha-se à
cauda enrolada de um cão — como pode alguém jamais
endireitá-lo?
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Keshab Chandra Sen num selo postal |
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Naren
foi a Dakshineswar com a mente dividida. Enquanto metade ansiava por
devoção e por sacrificar-se pelos outros, a outra metade,
influenciada por sua educação ocidental, era cética
e impaciente com a su-perstição. Naren entrou, com alguns
de seus amigos, no quarto de Ramakrishna, que lhe pediu que cantasse.
Naren aquiesceu. A extraordinária cena que se passou pode ser
melhor descrita com suas próprias palavras:
Cantei
e então, pouco depois, ele se levantou subitamente, tomou-me
pela mão e conduziu-me à varanda, ao norte de seu quarto,
trancando a porta atrás de si. Ficamos a sós. Pensei
que fosse dar-me algum conselho em particular mas, para meu absoluto
espanto, começou a verter lágrimas de alegria —
uma torrente delas — enquanto segurava minha mão e me
falava com ternura, como se eu fosse um velho amigo: — Ah! —
disse ele — como você demorou a chegar! Como pôde
ser tão insensível, deixando-me à sua espera
por tão longo tempo? Meus ouvidos estão quase calcinados
de ouvir a conversa de gente mundana. Oh, quanto tenho almejado desafogar
meu coração com alguém que compreenda tudo —
minha mais íntima experiência! — Ele continuou
nesse tom, entre soluços. Então, juntou as palmas das
mãos num gesto de prece e dirigiu-se a mim solenemente: —
Senhor, eu Te conheço. Tu és Nara, o antigo sábio,
a encarnação de Narayana. Voltaste ao mundo para aliviar
as tristezas da humanidade... E assim continuou.
Fiquei
completamente mudo diante de seu comportamento. Pensei: “Quem
é este homem que vim visitar? Deve ser um louco varrido. Eu,
um desconhecido, filho de Vishwanath Datta, e ele ousa chamar-me de
Nara!” Porém, continuei quieto e deixei-o falar. Logo
em seguida ele foi até seu quarto e me trouxe alguns doces,
feitos de açúcar–cande e manteiga, que me deu
de comer com suas próprias mãos. Fiquei dizendo a ele:
— Por favor, dê-me esses doces, quero partilhá-los
com meus amigos — mas não adiantou. Ele não parou
até que eu os tivesse comido todos. Então, segurando-me
pela mão, pediu: — Prometa-me voltar aqui sozinho, em
breve! — Ele insistiu tanto que tive de dizer sim. A seguir,
voltei com ele para a companhia de meus amigos.
Este
foi, com certeza, um profundo teste psicológico para o estudante
intelectual de dezoito anos! Contudo, a intuição de
Naren era mais profunda que sua sofis-ticação. Ele foi
incapaz de varrer Ramakrishna de sua mente, como se ele fora um mero
excêntrico. Se este homem era louco, então sua loucura
tinha algo de santa. Naren sentiu que estivera em presença
de um grande santo e começou a amá-lo.
No segundo encontro, Ramakrishna revelou-se sob outro aspecto, bastante
diferente, como um ser dotado de poder sobrenatural e aterrorizante.
Desta vez, Naren
encontrou-o sozinho no quarto. Ramakrishna cumpri-mentou-o afetuosamente
e pediu-lhe que sentasse a seu lado. Mais tarde, Naren descreveu o
que se passou:
Murmurando palavras para si mesmo, com os olhos fixos em mim, devagar
me fez chegar mais perto dele... Num piscar de olhos, plantou seu
pé direito em meu corpo. Este
contato me trouxe uma experiência inteiramente nova. Com meus
olhos abertos, arregalados, vi as paredes e tudo o mais no quarto
girando, desaparecendo no Nada. Todo o universo, junto com minha individualidade,
estava prestes a dissolver-se num onipresente, misterioso Vazio! Eu
estava em pânico e pensei que mergulhava na morte, pois a perda
de minha individualidade significava morte para mim. Não conseguia
controlar-me e gritei: — O que está fazendo comigo? Meus
pais me esperam em casa! — Ao ouvir isto, ele riu alto. Passando
de leve a mão em meu peito, disse: — Muito bem, por hoje
é só. Tudo virá a seu tempo. — O maravilhoso
foi que, ao dizer estas palavras, a experiência acabou. Voltei
a ser eu mesmo. Tudo dentro e fora do quarto tornou a ser o que era.
Ramakrishna,
com seu toque, levara Naren à porta da experiência de
superconsciência, que os hindus chamam de samadhi. Em samadhi,
todo o senso de identidade pessoal desaparece, vindo-se a conhecer
o Self, a Divin-dade, que sendo unidade, experimenta-se como uma espécie
de Vazio, em contraste com a multiplicidade de objetos que preenchem
nossa consciência sensorial comum. Dentro desse Vazio, perde-se
a identidade pessoal: essa perda, para quem não está
preparado, necessariamente se parece com a morte.
Para
Ramakrishna, em seu quase inimaginável ele-vado estado de consciência
espiritual, o samadhi era uma experiência cotidiana e a percepção
da presença de Deus nunca o abandonava. Vivekananda recordava-se:
“Eu me arrastei para perto dele e fiz a pergunta que du-rante
toda a minha vida tinha feito a tantos outros: — O senhor viu
Deus? — Sim, ele repondeu. — Pode com-provar o que está
dizendo? — Sim. — Como? — Porque eu O vejo como
vejo você aqui, só que com muito mais intensidade. —
Isso impressionou-me imediatamente. Pela primeira vez eu tinha encontrado
um homem que ousava dizer que tinha visto Deus e que a religião
era uma realidade — para ser sentida e experimentada de uma
forma infinitamente mais intensa do que sentimos o mundo.”

Os discípulos diretos de Sri Ramakrishna (Vivekananda
ao Centro com cajado)
Depois
disso Naren passou a visitar Ramakrishna com freqüência.
Viu-se gradualmente envolvido no círculo de jovens discípulos
— quase todos de sua idade — que Ramakrishna treinava
para a vida monástica. Naren não se rendeu facilmente
à influência dele. Continuava a perguntar-se se o hipnotismo
podia explicar o poder de Ramakrishna. A princípio, recusou-se
a participar do culto a Kali, considerando-o mera superstição.
Ramakrishna parecia apreciar esses escrúpulos. Costumava provocar:
— Teste-me como os cambistas testam suas moedas. Você
não deve acreditar em mim antes de testar-me por completo.
— Por sua vez, ele testava Naren, não tomando conhecimento
de sua presença durante semanas, para verificar se isso faria
com que o jovem deixasse de vir a Dakshineswar. Naren voltava assim
mesmo. Ramakrishna louvou-lhe a força interior: — Qualquer
outro — disse — teria me deixado há muito tempo.
Realmente,
o temperamento de Naren, que o fazia duvidar, constituía uma
de suas qualidades mais inspi-radoras. Dúvidas, todos experimentamos
e este arguto observador nos assegura que nada tem de ser aceito facilmente.
A nós até parece, conforme lemos a vida de Ramakrishna
e verificamos quantas vezes ele concedeu a Naren as mais profundas
revelações, que o discípulo duvidou demais e
por longo tempo. Devemos lembrar que ter fé era muito difícil
para Naren. Ele duvidava muito por ser capaz de acreditar muito. Para
a maioria de nós, as conseqüências da conversão
a uma crença não são de grande alcance. Para
ele, crer significava absoluta dedicação ao objeto de
sua crença. Não é de espantar que ele hesitasse
e que sua luta interior fosse tão rigorosa!
Em
1885, Ramakrishna passou a sofrer de câncer na garganta. À
medida que se tornava evidente que em breve o Mestre não mais
estaria com eles, os jovens discípulos tornaram-se mais próximos
uns dos outros. Naren era seu líder, junto com o jovem Rakhal,
mais tarde Swami Brahmananda. Certo dia, quando Ramakrishna jazia
nos últimos estágios de sua doença, Naren meditava
num dos quartos do andar térreo. De súbito, perdeu a
consciência do mundo exterior e entrou em samadhi [nirvikalpa].
Por um momento, aterrorizado, gritou: — Onde está meu
corpo? — Outro discípulo julgou que Naren estava morrendo
e subiu correndo para contar ao Mestre. — Deixe-o nesse estado
por um tempo — disse Ramakrishna com um sorriso — há
muito tempo ele tem pedido, com insistência, que eu lhe dê
essa experiência.
Bem
mais tarde, exuberante de alegria e paz Naren entrou no quarto de
Ramakrishna. Ramakrishna o preveniu: — Agora a Mãe mostrou-lhe
tudo, mas eu conservarei a chave. Quando você terminar o trabalho
da Mãe, encontrará o tesouro outra vez. — Esta
foi só uma das muitas ocasiões em que Ramakrishna deixou
claro que destinava Naren à missão de ensinar ao mundo.
Em dezesseis de agosto de 1886, Ramakrishna pronunciou o nome de Kali
em voz clara e sonora, passando ao samadhi final. No dia seguinte,
ao meio dia, o médico declarou-o morto.

Os
jovens sentiram que deviam manter-se unidos e um devoto conseguiu
para eles uma casa em Baranagore, a meio caminho entre Dakshineswar
e Calcutá. Fizeram dela o seu mosteiro. Era uma velha e dilapidada
casa, com najas sob o piso, alugada por algumas rúpias, porque
era tida como mal–assombrada. Em um altar entronizaram as cinzas
de Ramakrishna, onde eram cultuadas diariamente. Encorajados
por Naren, resolveram renunciar ao mundo e mais tarde professaram
os votos monásticos na forma prescrita.
Eram
apenas quinze, com pouco dinheiro e poucos amigos. Algumas vezes ficavam
sem alimento; outras, viviam de arroz cozido, sal e ervas amargas.
Cada um tinha duas tangas, nada mais. Possuíam em comum uma
muda de roupa, a ser usada no caso de um deles precisar ir à
cidade, e dormiam em esteiras de palha, no chão. Todavia,
brincavam e riam constantemente, cantando hinos e participando de
animadas discussões filosóficas. Permaneciam em silêncio
apenas durante as meditações. Sentiam a presença
contínua de Ramakrishna entre eles. Em vez de percebê-la
com reverência e tristeza, chegavam até a fazer graça
do Mestre. Um visitante descreveu como Naren imitava Ramakrishna entrando
em êxtase, enquanto os outros morriam de rir.
Gradualmente,
os jovens começaram a ficar inquie-tos, desejosos de seguir
o caminho de monge errante. Com o cajado e a tigela de mendicante,
perambularam por toda a Índia, visitando santuários
e locais de peregrinação, pregando, mendigando e passando
meses em choças longínquas, em meditação
solitária. Algumas vezes eram recebidos por marajás
e ricos devotos, po-rém, com maior freqüência, compartilhavam
da comida dos mais miseráveis.
Tais
experiências foram particularmente valiosas para Naren. Durante
os anos de 1890 a 1893 conheceu diretamente a fome na Índia,
sua miséria, nobreza e sabedoria espiritual, que levaria consigo
em sua viagem ao Ocidente. Depois de atravessar o país de norte
a sul, chegou ao Cabo Camorim, onde teve uma visão. Viu que
a Índia tinha uma missão no mundo moderno como potência
de regeneração espiritual, mas percebeu que esta força
não se tornaria efetiva enquanto suas condições
sociais não melhorassem radicalmente. Precisava recolher fundos
para escolas e hospitais e recrutar milhares de professores e trabalhadores.
Foi quando tomou a decisão de ir aos Estados Unidos em busca
de ajuda. Mais tarde essa decisão foi confirmada, quando o
Rajá de Ramnad lhe sugeriu comparecer ao recém–anunciado
Parlamento das Religiões em Chicago. Assim, essa específica
oportunidade serviria ao propósito de Naren. Em fins de maio
de 1893, tomou o navio em Bombaim, via Hong Kong e Japão, para
Vancouver, de onde alcançou Chicago por trem.
Após
o encerramento do Parlamento das Religiões, Vivekananda permaneceu
quase dois anos inteiros fazendo palestras em vários lugares
do leste e do centro dos Estados Unidos, principalmente em Chicago,
Detroit, Boston e Nova York. Na primavera de 1895 estava terrivelmente
cansado, em más condições de saúde; porém,
como lhe era peculiar, sorria da situação. — O
senhor nunca leva as coisas a sério, Swamiji? — alguém
certa vez lhe perguntou, talvez com uma ponta de reprovação
na voz. — Oh, sim — replicou ele — quando tenho
dor de barriga. — Ele conseguia até mesmo perceber o
lado engraçado dos inúmeros excêntricos e curandeiros
que, impiedosos, o acossavam esperando tirar algum proveito de sua
fama. Em cartas, Vivekananda referiu-se jocosamente à seita
da “Senhora Ventoinha” e a certo curandeiro mental “metafísico–químico–físico–religioso
e não–sei–o–que–mais.”
Ao
mesmo tempo, conheceu e impressionou gente mais séria —
o agnóstico Robert Ingersoll, o inventor Nikola Tesla, a cantora
lírica Madame Calvé. E, ainda mais significativo, atraiu
alguns estudantes cujo interesse e entusiasmo não foram passageiros
e que se dispuseram a dedicar o resto de suas vidas à prática
de seus ensinamentos. Em junho de 1895 convidaram-no a trazer doze
deles a uma casa situada em Thousand Island Park, numa ilha do rio
São Lourenço. Durante quase dois meses, instruiu-os
informalmente, como Ramakrishna
fizera com ele e seus gurubhais [discípulos do mesmo Mestre].
Dos presentes, ninguém jamais se esqueceu daquelas semanas.
Talvez tenha sido o período mais feliz da primeira visita de
Vivekananda aos Estados Unidos.
Em
agosto, embarcou para a França e a Inglaterra, retornando a
Nova York em dezembro. Foi então que, em virtude da urgente
solicitação de seus devotos, fundou a primeira das Sociedades
de Vedanta nos Estados Unidos: a Vedanta Society de Nova York [Vedanta
significa a filosofia não–dualista exposta nos Vedas,
a mais antiga das escrituras hindus. De acordo com suas convicções,
Vivekananda não deu à fundação o nome
de Sociedade Ramakrishna]. Foi também nessa época que
ele foi convidado para ocupar a cátedra de Filosofia Oriental
em Harvard, tendo recebido convite similar da Universidade de Colúmbia.
A ambos recusou, alegando que, sendo monge errante, não podia
exercer trabalho desse tipo. Além do mais, almejava regressar
à Índia. Em abril, rumou de navio para a Inglaterra,
primeiro estágio de sua volta para casa.
Da
Inglaterra levou consigo dois de seus mais fiéis e dinâmicos
discípulos, o Capitão Sevier e a esposa, além
de J.J. Goodwin, um inglês que conhecera nos Estados Unidos
e se tornara o escriba de suas palestras e lições. Mais
tarde seguiu-o a irlandesa Margaret Noble, que se tornou a Irmã
Nivedita e devotou o resto de sua vida à educação
das indianas e à causa da independência do país.
Todos estes primeiros colaboradores faleceram na Índia.
Vivekananda
desembarcou no Ceilão [Sri Lanka] em meados de janeiro de 1897.
Dali em diante, sua jornada a Calcutá progrediu triunfalmente.
Seus compatriotas haviam acompanhado pelos jornais as notícias
de suas palestras nos Estados Unidos. Talvez o sucesso de Vive-kananda
possa ter sido, em algum momento, tratado com certo exagero. Com justiça,
porém, valorizaram sua visita ao Ocidente como uma vitória
simbólica, excedendo em grande proporção à
mera quantia de dinheiro que ele havia recolhido em prol de sua causa
ou ao número de discípulos que havia feito. Na verdade,
nenhum indiano antes de Vivekananda fizera americanos e ingleses aceitarem-no
desta maneira — não como aliado servil, não como
inimigo declarado, mas como simpatizante e sincero amigo, disposto
igualmente a ensinar e aprender, pedir e oferecer ajuda. Quem mais
permaneceu, como ele, imparcial entre o Oriente e o Ocidente, prezando
as virtudes e condenando os defeitos das duas culturas? Quem mais
poderia oferecer uma síntese da jovem Índia do século
xix e da ancestral Índia dos Vedas? Quem mais poderia levantar-se
como defensor de sua pátria contra a pobreza e a opressão
e, ao mesmo tempo, sinceramente louvar o idealismo americano e a objetividade
britânica? Tal é a grandeza de Vivekananda.
Em
meio a toda essa adulação, Vivekananda jamais esqueceu
quem era: discípulo de Ramakrishna e irmão em igualdade
de condições de seus companheiros monges. Em primeiro
de maio de 1897, convocou uma reunião dos discípulos
de Ramakrishna — monges e chefes de família — a
fim de fundar e constituir sua obra. Propôs a integração
dos serviços educacionais, filantrópicos e religiosos;
foi assim que a Ramakrishna Mission e o Ramakrishna Math [mosteiro]
surgiram. A Missão entregou-se ao trabalho imediatamente, participando
do socorro nas calamidades e na luta contra a fome, e fundando seus
primeiros hospitais e escolas. Elegeram Brahmananda seu primeiro presidente.
Vivekananda entregou-lhe todo o dinheiro recolhido na América
e na Europa. Feito isso foi obrigado a pedir alguns centavos para
atravessar o Ganges de balsa. Desde então, insistiu em compartilhar
da pobreza de seus gurubhais, irmãos monges.
O
mosteiro foi consagrado algum tempo depois, em Belur, a pouca distância
do Templo de Dakshineswar, na margem oposta do Ganges. É o
mosteiro principal da Ordem Ramakrishna, hoje com mais de uma centena
de centros na Índia e em terras asiáticas vizinhas.
Os monges devotam-se à vida contemplativa, ao serviço
social, ou à combinação das duas atividades.
A Ramakrishna Mission possui seus próprios hospitais e dispensários,
faculdades, escolas secundárias, agrícolas e industriais,
bibliotecas e editoras, dirigidos por monges da Ordem.
Em junho de 1899, Vivekananda embarcou para sua segunda visita ao
Ocidente, levando em sua companhia Nivedita e Swami Turyananda, um
de seus gurubhais. Desta vez ele veio pela Europa e pela Inglaterra,
mas passou a maior parte do ano seguinte nos Estados Unidos. Foi à
Califórnia e deixou Turyananda lecionando em São Francisco.
Era desejo de Vivekananda fundar centros de Vedanta no Ocidente. Atualmente1,
há dez centros nos Estados Unidos, um na Argentina, um na Inglaterra
e um na França.
De
volta à Índia, Vivekananda era um homem muito doente;
revelara que não esperava viver por muito mais tempo. Sentia-se,
porém, feliz e tranqüilo. Parecia contente de poder relaxar
da energia e ansiedade que consumiram seus anos de ação
no mundo. Agora, almejava apenas a paz da contemplação.
Pouco antes de deixar a América, escreveu uma bela carta a
um amigo, extraordinariamente reveladora:
Estou
contente por ter nascido, contente por ter sofrido tanto, contente
por ter cometido grandes e graves erros, contente por alcançar
a paz. Que meu corpo morra e me liberte, ou que eu encontre a liberdade
enquanto ainda estiver no corpo, o velho homem se foi para sempre,
para nunca mais voltar! Por trás do meu trabalho havia ambição,
por trás do meu amor, personalidade, por trás da minha
pureza, medo. Agora que se estão desvanecendo, flutuo.
Há quem diga que a despedida de Vivekananda deste mundo, em
quatro de julho de 1902, no Mosteiro de Belur, teve a aparência
de um ato premeditado. Alguns meses antes ele começou a livrar-se
de suas diversas responsabilidades e a treinar sucessores. Sua saúde
havia melhorado. Tomou a refeição do meio dia com apetite,
discutiu filosofia, caminhou cerca de três quilômetros.
Ao cair da noite, entrou em profunda meditação e seu
coração parou de bater. Durante horas procuraram reanimá-lo,
mas aparentemente seu trabalho havia sido concluído e Ramakrishna
lhe devolvera a chave do tesouro.
A
melhor introdução a Vivekananda, porém, não
é ler sobre sua vida, mas ler seus livros. A personalidade
do Swami, com toda a força, encanto, coragem, autoridade espiritual,
vigor e bom humor, com que impacto nos alcança por intermédio
de seus escritos e anotações!
Ao
ler o que ele escreveu, é bom lembrar que “uma coerência
insensata é o bicho–papão das mentes pequenas.”
Quando Emerson escreveu essa frase em seu ensaio sobre a autoconfiança,
estava confrontando as “mentes pequenas” com as grandes
mentes de Jesus, Sócrates e outros. Com certeza, Emerson acrescentaria
Vivekananda à sua lista caso eles se tivessem encontrado e
conhecido. Mas Emerson morreu em 1882.
Vivekananda
era o último homem no mundo a preocupar-se com coerência
formal. Quase sempre falou de improviso, inflamado pelas circunstâncias
do momento, dirigindo-se a um grupo específico de ouvintes,
reagindo à intenção de cada argumento. Esta era
sua natureza — supremamente indiferente à aparente contradição
entre suas palavras de ontem e de hoje. Mestre iluminado, sabia que
a verdade nunca está contida na forma do discurso. Está
naquele que o enuncia. Se ele é autêntico, suas palavras
são menos importantes. Nesse sentido, Vivekananda é
incapaz de contradição.
Vivekananda
não foi apenas um grande mestre com uma mensagem internacional;
foi também um grande indiano, um patriota que inspirou seus
conterrâneos até as gerações presentes.
Mas é um erro pensar nele como uma figura política,
mesmo no melhor sentido do termo. Ele foi, sobretudo, o jovem que
devotou sua vida a Ramakrishna. Em última análise, sua
missão foi espiritual, não tendo sido nem política
nem mesmo social.
O
plano de ação da Ordem Ramakrishna sempre se manteve
fiel à intenção de Vivekananda. No começo
da década de vinte, quando a luta da Índia contra a
Inglaterra se tornou intensa e amarga, a Ordem foi duramente criticada
por recusar-se a permitir a seus membros a participação
no movimento de resistência pacífica, de Gandhi. Gandhi,
porém, nunca fez coro com essa crítica. Ele compreendeu
perfeitamente que uma organização religiosa ao defender
uma causa po-lítica — por mais nobre e justa que seja
— só pode comprometer-se espiritualmente e, portanto,
perde a autoridade que justifica sua existência na sociedade
humana. Em 1921, Gandhi veio a Belur Math, no ani-versário
de nascimento de Vivekananda, para prestar a ele seu tributo emocionado.
Os escritos do Swami, disse Gandhi, o ensinaram a amar ainda mais
a Índia. Visitou com reverência o quarto que se abria
para o Ganges, onde Vivekananda passou os últimos meses de
sua vida.

Quarto de Vivekananda em Belur Math
Esse
quarto pode ser visitado ainda hoje; é conser-vado exatamente
como Vivekananda o deixou. Mas não parece um museu nem um aposento
desocupado. Logo à direita encontra-se o quarto usado pelo
Presidente da Ordem Ramakrishna. Estão ali, lado a lado, a
autoridade humana visível e a presença inspiradora invisível.
Em Belur Math, Vivekananda continua a viver e participar de suas atividades
diárias tanto quanto qualquer um de seus monges.