Perguntas de Destaque

Fonte: Entrevista de Maria Vianna ao Swami Nirmalatmananda
JB Online - Caderno Vida de 02/04 de 2005


Quais os princípios da Vedanta?

Vedanta é uma filosofia baseada nos Upanishads, última parte dos Vedas, textos sagrados hindus. Entre seus vários princípios, destaca-se o que diz que a natureza essencial do homem é infinita e divina. Em outras palavras, que temos uma consciência espiritual infinita. Na vedanta, acreditamos que o divino pode se manifestar de várias formas, materiais ou não. Jesus, Buddha e Krishna são todos manifestações divinas, por exemplo. A paz e a harmonia são alcançadas quando o indivíduo se aproxima do divino, que, além de estar em tudo, também está dentro dele mesmo. Ao realizar que tem potencial divino, o homem se aproxima de sua essência e, conseqüentemente, de uma vida harmônica. A vedanta afirma que o homem tem um potencial ilimitado para a felicidade.

Como aplicar a filosofia no dia-a-dia?

Depois de ler os textos e ouvir um pouco da filosofia, o indivíduo deve aprofundar sua prática espiritual em atitudes diárias. Isso pode ser na forma de reflexão, de oração ou meditação. Assim como temos a hora do almoço, precisamos ter a hora da prática espiritual. Isso é a base de todas as religiões. Quando o padre afirma que o reino de Deus está em você, ele está dizendo que está em seu interior a possibilidade de se conectar com o divino.

Como funciona a Ordem Ramakrishna no Brasil?

Sempre houve um grande interesse dos brasileiros pelo hinduísmo e pela ordem dos Ramakrishnas. De vez em quando, alguém escrevia para Calcutá, na Índia, e pedia a visita de um guru. Quando os monges perceberam que o interesse era sério, mandaram um representante da ordem ao Brasil. Logo depois, o templo da Vila Mariana, em São Paulo, foi construído. Lá, temos aulas sobre os Vedas, aconselhamento espiritual, meditações e uma ONG dedicada a ajudar a população carente da periferia de São Paulo, pois quando a pessoa está de bem com ela mesma, o passo seguinte deve ser ajudar o próximo.

Qual a importância de debater o assunto "Religião" atualmente?

O livro "O Que é Religião" nos diz claramente que o mais importante no homem é manter a mente aberta. Que ele não pode se fechar em sua religião e crenças e alimentar um preconceito contra o próximo. A ignorância religiosa limita e exclui. De acordo com a vedanta, não devemos considerar uma pessoa segundo sua religião, seu sexo ou sua nacionalidade. Você, como ser humano, já basta. Quem não amadurece suas crenças espirituais fica preso à ignorância religiosa e tende ao fanatismo, preconceito e terrorismo.

Todas as religiões são iguais?

Todas as religiões e toda prática espiritual têm o mesmo objetivo, que é proporcionar o autoconhecimento que leva à conexão com o divino. Há várias formas de se chegar a Deus. É ignorância dizer que apenas um caminho é o certo. A experiência espiritual é variada e ilimitada.

Como o senhor vê o aumento das doenças de fundo psicológico?

A causa principal da angústia coletiva que se observa, das doenças da alma, é a ignorância do homem em relação aos seus verdadeiros anseios. As pessoas não estão se dedicando ao autoconhecimento, à busca da sua verdadeira essência. Procuram as respostas do lado de fora, no consumo, no dinheiro, e esquecem de alimentar a própria alma. O autoconhecimento é a chave para o fim dos medos, da angústia, da solidão e da depressão. É a chave para uma vida livre e sem amarras.

O que o senhor pensa sobre os valores do mundo capitalista, em especial o consumismo?

O autoconhecimento é o caminho mais difícil, mas o mais necessário. Sem ele, as pessoas se sentem vazias e começam a acreditar que bens materiais vão trazer satisfação pessoal. Mas é uma satisfação momentânea. Nada do que a pessoa possui pode transmitir sensação de segurança e felicidade. Sabemos sempre o que fazer ou deixar de fazer, mas não sabemos ser. Precisamos primeiro aprender a despertar nossa alma e ficar em paz sozinhos, para depois ficarmos bem com os outros. O consumismo cansa. Mais cedo ou mais tarde, as pessoas entendem que precisam buscar algo maior para se sentirem felizes.

É possível ser de outra religião e seguir a Vedanta?

Sim. Percebo que pessoas de outras religiões que seguem a filosofia acabam fortalecendo seus laços com a própria religião, voltam a freqüentar a igreja, por exemplo. A base de todas as religiões é igual. A filosofia da vedanta estimula um contato do indivíduo com ele mesmo e não interfere em suas crenças. É comum pessoas chegarem ao centro desiludidas com a religião e sairem das meditações com sua crença renovada. E também é possível seguir a vedanta sendo ateu, por exemplo. O importante é entender que a igreja, a sinagoga e o ashram são um dos meios para se chegar mais perto da energia do divino.

Como o senhor vê esse crescente interesse dos ocidentais pelo Oriente?

Acredito que a maioria dos ocidentais esteja cansada da filosofia capitalista, do consumo desenfreado. Apesar do conforto material, as pessoas estão muito insatisfeitas. Viver para ter satisfação imediata é levar uma vida limitada. Ao buscar as religiões ocidentais, se decepcionam, pois elas jogam muita culpa em cima do homem. As orientais são mais tolerantes, por isso acabam agradando. É lógico que o Oriente não é um mar de rosas, as pessoas também sofrem. A diferença é que lá os indivíduos aprenderam que é preciso olhar para dentro, em vez de buscar as respostas em uma infinidade de lugares.


Ramakrishna Vedanta Rio de Janeiro
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