| Perguntas de Destaque Fonte:
Entrevista de Maria Vianna ao Swami Nirmalatmananda |
Quais
os princípios da Vedanta?
Vedanta é uma filosofia baseada nos Upanishads, última parte
dos Vedas, textos sagrados hindus. Entre seus vários princípios,
destaca-se o que diz que a natureza essencial do homem é infinita
e divina. Em outras palavras, que temos uma consciência espiritual
infinita. Na vedanta, acreditamos que o divino pode se manifestar de várias
formas, materiais ou não. Jesus, Buddha e Krishna são todos
manifestações divinas, por exemplo. A paz e a harmonia são
alcançadas quando o indivíduo se aproxima do divino, que,
além de estar em tudo, também está dentro dele mesmo.
Ao realizar que tem potencial divino, o homem se aproxima de sua essência
e, conseqüentemente, de uma vida harmônica. A vedanta afirma
que o homem tem um potencial ilimitado para a felicidade.
Como
aplicar a filosofia no dia-a-dia?
Depois de ler os textos e ouvir um pouco da filosofia, o indivíduo
deve aprofundar sua prática espiritual em atitudes diárias.
Isso pode ser na forma de reflexão, de oração ou meditação.
Assim como temos a hora do almoço, precisamos ter a hora da prática
espiritual. Isso é a base de todas as religiões. Quando o
padre afirma que o reino de Deus está em você, ele está
dizendo que está em seu interior a possibilidade de se conectar com
o divino.
Como funciona
a Ordem Ramakrishna no Brasil?
Sempre houve um grande interesse dos brasileiros pelo hinduísmo e
pela ordem dos Ramakrishnas. De vez em quando, alguém escrevia para
Calcutá, na Índia, e pedia a visita de um guru. Quando os
monges perceberam que o interesse era sério, mandaram um representante
da ordem ao Brasil. Logo depois, o templo da Vila Mariana, em São
Paulo, foi construído. Lá, temos aulas sobre os Vedas, aconselhamento
espiritual, meditações e uma ONG dedicada a ajudar a população
carente da periferia de São Paulo, pois quando a pessoa está
de bem com ela mesma, o passo seguinte deve ser ajudar o próximo.
Qual
a importância de debater o assunto "Religião" atualmente?
O livro "O Que é Religião" nos diz claramente que
o mais importante no homem é manter a mente aberta. Que ele não
pode se fechar em sua religião e crenças e alimentar um preconceito
contra o próximo. A ignorância religiosa limita e exclui. De
acordo com a vedanta, não devemos considerar uma pessoa segundo sua
religião, seu sexo ou sua nacionalidade. Você, como ser humano,
já basta. Quem não amadurece suas crenças espirituais
fica preso à ignorância religiosa e tende ao fanatismo, preconceito
e terrorismo.
Todas
as religiões são iguais?
Todas as religiões e toda prática espiritual têm o mesmo
objetivo, que é proporcionar o autoconhecimento que leva à
conexão com o divino. Há várias formas de se chegar
a Deus. É ignorância dizer que apenas um caminho é o
certo. A experiência espiritual é variada e ilimitada.
Como
o senhor vê o aumento das doenças de fundo psicológico?
A causa principal da angústia coletiva que se observa, das doenças
da alma, é a ignorância do homem em relação aos
seus verdadeiros anseios. As pessoas não estão se dedicando
ao autoconhecimento, à busca da sua verdadeira essência. Procuram
as respostas do lado de fora, no consumo, no dinheiro, e esquecem de alimentar
a própria alma. O autoconhecimento é a chave para o fim dos
medos, da angústia, da solidão e da depressão. É
a chave para uma vida livre e sem amarras.
O
que o senhor pensa sobre os valores do mundo capitalista, em especial o
consumismo?
O autoconhecimento é o caminho mais difícil, mas o mais necessário.
Sem ele, as pessoas se sentem vazias e começam a acreditar que bens
materiais vão trazer satisfação pessoal. Mas é
uma satisfação momentânea. Nada do que a pessoa possui
pode transmitir sensação de segurança e felicidade.
Sabemos sempre o que fazer ou deixar de fazer, mas não sabemos ser.
Precisamos primeiro aprender a despertar nossa alma e ficar em paz sozinhos,
para depois ficarmos bem com os outros. O consumismo cansa. Mais cedo ou
mais tarde, as pessoas entendem que precisam buscar algo maior para se sentirem
felizes.
É
possível ser de outra religião e seguir a Vedanta?
Sim. Percebo que pessoas de outras religiões que seguem a filosofia
acabam fortalecendo seus laços com a própria religião,
voltam a freqüentar a igreja, por exemplo. A base de todas as religiões
é igual. A filosofia da vedanta estimula um contato do indivíduo
com ele mesmo e não interfere em suas crenças. É comum
pessoas chegarem ao centro desiludidas com a religião e sairem das
meditações com sua crença renovada. E também
é possível seguir a vedanta sendo ateu, por exemplo. O importante
é entender que a igreja, a sinagoga e o ashram são um dos
meios para se chegar mais perto da energia do divino.
Como
o senhor vê esse crescente interesse dos ocidentais pelo Oriente?
Acredito que a maioria dos ocidentais esteja cansada da filosofia capitalista,
do consumo desenfreado. Apesar do conforto material, as pessoas estão
muito insatisfeitas. Viver para ter satisfação imediata é
levar uma vida limitada. Ao buscar as religiões ocidentais, se decepcionam,
pois elas jogam muita culpa em cima do homem. As orientais são mais
tolerantes, por isso acabam agradando. É lógico que o Oriente
não é um mar de rosas, as pessoas também sofrem. A
diferença é que lá os indivíduos aprenderam
que é preciso olhar para dentro, em vez de buscar as respostas em
uma infinidade de lugares.