Kali a Mãe

Extraído de ‘Vida de Swami Vivekananda' – Visita a Amarnath e Kshirbhavani pág. 111

Retornando a Srinagar depois da peregrinação a Amarnath, caiu Swamiji num clima de adoração à Mãe. Sua total entrega a este estado d'alma o consumia impiedosamente como uma ‘febre mental', não deixando-lhe tempo para o sono ou para o descanso. Na noite de dois de setembro, tendo-se dirigido a um recanto solitário em seu barco residencial, parece ter tido uma vívida experiência com a Mãe, semelhante com a que tivera em Dakshineswar. Com sua tenção completamente centrada no que é sombrio, doloso e inescrutável nesse mundo, e determinado a alcançar, por aquele caminho particular, o Uno subjacente aos fenômenos, teve a visão de Kali a Terrível, cuja experiência exaltou na forma de um curto poema, intitulado Kali a Mãe, e que aqui transcrevemos:

As estrelas foram obscurecidas,

Nuvens cobrem nuvens,

É escuridão vibrante, sonora.

No vento rugente, rodopiante,

Encontram-se as almas de milhões

De lunáticos recém soltos do presídio

Arrancando árvores pelas raízes,

Varrendo tudo do caminho.

O mar entra na luta

Erguendo ondas montanhosas

Para alcançar o breu do céu.

O feixe escabroso de luz

Revela em cada canto

Milhares e milhares de sombras

Da morte enodoada e negra

Espalhando pragas e tristezas

Dançando louca de alegria.

Vinde, Mãe, vinde!

Pois terror é Vosso nome,

A morte é o vosso sopro,

E cada passo trôpego Vosso

Destrói um mundo para sempre!

Tu ó “Tempo”,

Destruidor de tudo!

Vinde, Mãe, vinde!

Àquele que ouse amar o infortúnio

E abrace a forma da Morte,

E dance a dança da destruição,

A esse, a Mãe virá.

 

Depois de tê-lo escrito, a pena caiu-lhe da mão, e ele permaneceu como que morto no êxtase de Bhava Samadhi. Deste dia em diante passou a falar a seus discípulos sobre a adoração da Terrível, e sobre sua descoberta da doce face da Mãe no sofrimento. Disse: “É um erro supor que o prazer seja o motivo fundamental para todos os homens. Os haverá em igual número os que nasceram para buscar a dor. Pode haver bem-aventurança também no suplício. Adoremos o Terror em si mesmo.” E ainda: “Aprendamos a reconhecer a Mãe, de forma igualmente instintiva no mal, no terror, na tristeza, na aniquilação, tanto quanto na doçura e na alegria.”

“Apenas pelo adoração do Terrível pode o Terrível ser sobrepujado, e a imortalidade conquistada. Meditai na Morte, adorai o Terrível! A própria Mãe é Brahman. O coração deve transformar-se num campo crematório – orgulho, egoísmo e desejo, todos reduzidos à cinzas. Então, e só então, virá a Mãe!”

 



 
 
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