Swami Ranganathananda
 
 

Um Monge com uma Missão
Por: Swami Sunirmalananda
(SP - 26 de abril de 2005)

Faleceu ontem um grande monge. A Índia perdeu um grande filho. “A Mãe Saraswati dançará em sua língua”, foi a bênção que Swami Akhandananda, um discípulo de Sri Ramakrishna, deu a este monge. E esta bênção fez-se verdade. Discípulo do Swami Shivananda da Ordem Ramakrishna, Ranganathananda tornou-se o líder desta Ordem sagrada, da mesma forma que seu próprio guru, e conduziu um movimento vanguardista de espiritualidade até sua morte.
“Só vive de verdade quem vive para os outros. Os demais estão mais mortos do que vivos”, afirmou Swami Vivekananda. Em Swami Ranganathananda encontramos um exemplo daqueles que viveram somente para os outros. Temos aqui uma personalidade completa. Mas tais personalidades não são amplamente conhecidas. Ocupada com políticos ladrões insignificantes e com criminosos, nossa mídia, naturalmente, presta pouca atenção à grandeza espiritual. Contudo, grandes homens nunca cessam de servir ao mundo. Assim tínhamos uma personalidade que era totalmente dedicada ao trabalho silencioso pelo bem da humanidade.
Não faz tanto tempo. Estávamos então em Bangalore. Swami Ranganathananda, na época aos seus setenta anos, chegou ao Ashrama Ramakrishna desta cidade, para ministrar uma série de conferências. Com Ranganathananda, veio uma pequena “marmita”, que podia conter alimento suficiente apenas para uma criança do jardim de infância. Quando chegou, era tarde da noite. Entrou no Ashrama, e depois de trocar saudações, sentou-se num banco, e comeu da sua pequena marmita. Por toda a sua vida, sofrera de problemas digestivos. Resumindo, ele dificilmente conseguia digerir alguma coisa. Qualquer outra pessoa teria se deixado abater e cairia de cama, mas não Swami Ranganathananda. A despeito deste problema que debilitava sua saúde, ele era sempre forte e firme, e pronto para servir. Mesmo aos seus noventa anos, ele caminhava ereto, com um andar leonino.
Onde quer que fosse, pronunciava discursos sobre diversos temas, inspirando as pessoas. E quão grandiosos eram! Um dia, falando sobre o Bhagavata, por exemplo, no ashrama de Bangalore, por volta de duas horas de palestra emocionante, ensinou ao público toda a essência Bhagavata. Não havia lugar para se sentar naquele ashrama que era grande—milhares estavam ouvindo embevecidos. Tal era sua erudição. Aparte de sua erudição, seu coração suspirava sempre por servir ao pobre e necessitado. Depois da palestra, alguém veio falar com o swamiji. Esse homem dissera que vinha sofrendo gravemente de pressão sanguínea e outros problemas porque não recebia sua pensão há cinco anos. Imediatamente, o swami telefonou para um funcionário, discutiu o problema, e a situação foi acalmada imediatamente.
Entre 1946 e 1972, Ranganathananda viajou por mais de cinqüenta países do mundo—sozinho, sem muitos recursos, e dependendo totalmente de Deus e do que o acaso lhe pudesse trazer. Foi embaixador espiritual da Índia para o Ocidente. Penetrou a Cortina de Ferro, enfrentou a Segunda Grande Guerra, presenciou o pior da violência do povo, suportou adversidades às centenas.
Como tinha interesse em casos! Há alguns incidentes interessantes que mostram como até mesmo países frios tinham buscadores do conhecimento da Vedanta, e quando Ranganathananda falava, centenas o ouviam com respeito e admiração. Foi devido à inspiração de Ranganathananda que muitos centros da Ordem Ramakrishna floresceram em diferentes partes do mundo.
Desde sua infância, o Swami fora um grande estudante. Embora não tivesse muita instrução secular, era um milagre de Deus devido à sua imensa erudição. Ele foi uma encarnação do saber. Estudou Sânscrito e Inglês, os Vedas, o Gita, filosofia Indiana e Ocidental, religião comparada em profundidade. O swami podia ministrar palestras em muitos idiomas e conversar em tantos mais. U monge adiantado da Orden Ramakrishna, que havia viajado certa vez com Ranganathananda, relatou que Ranganathananda jamais desperdiçava um momento sequer de sua vida. Fosse de trem, ônibus, ou de avião, ele continuava lendo, tomando nota, e utilizando seu tempo produtivamente. Tinha uma coleção imponente de livros pessoais, todos lidos completamente, e marcados com suas observações encantadoras. Ele supriu muitas bibliotecas presenteando-as com seus livros pessoais. E tornando-se monge da grande Ordem de Ramakrishna, Ranganathananda tornou-se naturalmente também um profundo aspirante espiritual.
A combinação da força da espiritualidade e da sabedoria filosófica por excelência tornou Ranganathananda um instrumento legítimo para o empreendimento de uma missão: aquela de propagar pelo mundo a gloriosa mensagem dos antigos sábios da Índia. A missão da Índia era a sua missão. A missão de Vivekananda era a sua missão—a de despertar o mundo para a espiritualidade. Foi desta maneira que ele se tornou o embaixador espiritual da Índia no ocidente, indo de país em país, reunindo pessoas, falando sobre as glórias da Vedanta, solucionando centenas de problemas, e inspirando todos a levarem vidas iluminadas. Fossem os Vedas, Upanishads, Bhagavata, Ramayana, o moderno saber científico, as idéias de desenvolvimento social, ou qualque outro assunto similar, Ranganathananda proferia discursos magistrais, que tocavam os corações dos ouvintes, inspirando-os a levarem vidas maravilhosas.
Eis um dito em sânscrito: “vidvan sarvatra pujyate”. Este sábio de conhecimento e iluminação era certamente venerado em toda parte. Pessoas em países distantes como o Brasil, recordam com gratidão a inspiração que receberam deste swami nos idos de 1967. Diz-se que durante seus dias como Secretário da Missão Ramakrishna, em Nova Deli, personalidades vigorosas como Jawaharlal Nehru se acocoravam nos gramados da Missão para escutarem seus discursos arrebatadores. Ranganathananda tinha admiradores de todas as searas da vida. Há uma famosa declaração de que Ranganathananda só sabia fazer amigos, e jamais perdeu um deles.
Independentemente de ser um orador de renome mundial, o swami foi também um grande escritor. Dentre suas maiores obras destacam-se Message of the Upanishads, A Pilgrim Looks at the World [2 vols], Bhagavad Gita, Brihadaranyaka Upanishad, Spiritual Life of the Householder, e tantas mais. Seus livros foram traduzidos em muitos idiamas, e milhas de cópia foram vendidas. Fora isso, o swami era também um grande administrador. Trabalhou como secretário e bibliotecário no centro da Missão Ramakrishna em Rangoon de 1939 a 1942 e depois como dirigente do Mosteiro e da Missão Ramakrishna em Karachi de 1942 a 1948, em seguida como dirigente do centro de Nova Deli até 1962, foi Secretário do Instituto de Cultura da Missão Ramakrishna de Calcutá em Kolkata por muitos anos, e dirigiu o centro de Hyderabad por 30 longos anos. Ele foi um dos membros do Conselho do Mosteiro e da Missão Ramakrishna por mais de quarenta anos. Onde quer que servisse, transformava aquele ashrama num grande centro de saber e espiritualidade. Os centros de Nova Deli e Hyderabad, por exemplo, mantém-se como exemplos vivos desta afirmação. Quando a Índia se tornou livre, ele estava em Karachi, como líder do centro da Missão Ramakrishna lá existente. A divisão (entre Índia e Paquistão) deteve totalmente o progresso das atividades da Vedanta em Karachi, e a Missão teve que ser fechada nesta região. Os swamis tiveram que regressar para a Índia sob penosas condições. Por todos os meios, Ranganathananda conseguiu reunir uma grande quantidade de arroz e enviá-la para as massas empobrecidas. Por toda a sua vida, Ranganathananda auxiliou de diversas maneiras a um incontável número de pessoas e e organizações.
Durante seu longo exercício como Vice Presidente da Ordem, e depois como Presidente, Swami Ranganathananda inspirou milhares de buscadores espirituais a levarem vidas espiritualizadas. Ele foi um grande admirador do Swami Vivekananda, e leu suas Obras Completas pelo menos umas 75 vezes! Era avesso à fraqueza e a ‘semblantes de autopiedade’. Mesmo perto dos seus 80 anos ele poderia ser visto jogando volleyball. Assim era o seu espírito. Verdadeiro sannyasin que era, esquivava-se dos enaltecimentos e elogios, apesar de merecer muito mais do que lhe dispensavam.
Ranganathananda encarnava por tanto o antigo e eterno espírito indiano de combinação harmoniosa de vitalidade física e força mental, profunda intelectualidade e dinamismo espiritual, intensa praticidade e profundo idealismo. Tais pessoas nem sempre nascem sobre a esta Terra. Somente a Índia pode produzir semelhantes filhos que se tornam exemplos vivos de vitalidade espiritual combinado com uma praticidade ‘bem pé no chão’. Ranganathananda, como todos sabem, foi um presente de Kerala para o mundo, este estado no qual nasceu em 15 de Dezembro de 1908. Viveu cada momento de seus 96 anos sobre a Terra, insuflando vida a todos que encontrou até o fim.

 

 

 

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