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Faleceu
ontem um grande monge. A Índia perdeu um grande filho. “A Mãe
Saraswati dançará em sua língua”, foi a bênção
que Swami Akhandananda, um discípulo de Sri Ramakrishna, deu a
este monge. E esta bênção fez-se verdade. Discípulo
do Swami Shivananda da Ordem Ramakrishna, Ranganathananda tornou-se o
líder desta Ordem sagrada, da mesma forma que seu próprio
guru, e conduziu um movimento vanguardista de espiritualidade até
sua morte.
“Só
vive de verdade quem vive para os outros. Os demais estão mais
mortos do que vivos”, afirmou Swami Vivekananda. Em Swami Ranganathananda
encontramos um exemplo daqueles que viveram somente para os outros. Temos
aqui uma personalidade completa. Mas tais personalidades não são
amplamente conhecidas. Ocupada com políticos ladrões insignificantes
e com criminosos, nossa mídia, naturalmente, presta pouca atenção
à grandeza espiritual. Contudo, grandes homens nunca cessam de
servir ao mundo. Assim tínhamos uma personalidade que era totalmente
dedicada ao trabalho silencioso pelo bem da humanidade.
Não
faz tanto tempo. Estávamos então em Bangalore. Swami Ranganathananda,
na época aos seus setenta anos, chegou ao Ashrama Ramakrishna desta
cidade, para ministrar uma série de conferências. Com Ranganathananda,
veio uma pequena “marmita”, que podia conter alimento suficiente apenas
para uma criança do jardim de infância. Quando chegou, era
tarde da noite. Entrou no Ashrama, e depois de trocar saudações,
sentou-se num banco, e comeu da sua pequena marmita. Por toda a sua vida,
sofrera de problemas digestivos. Resumindo, ele dificilmente conseguia
digerir alguma coisa. Qualquer outra pessoa teria se deixado abater e
cairia de cama, mas não Swami Ranganathananda. A despeito deste
problema que debilitava sua saúde, ele era sempre forte e firme,
e pronto para servir. Mesmo aos seus noventa anos, ele caminhava ereto,
com um andar leonino.
Onde
quer que fosse, pronunciava discursos sobre diversos temas, inspirando
as pessoas. E quão grandiosos eram! Um dia, falando sobre o Bhagavata,
por exemplo, no ashrama de Bangalore, por volta de duas horas de palestra
emocionante, ensinou ao público toda a essência Bhagavata.
Não havia lugar para se sentar naquele ashrama que era grande—milhares
estavam ouvindo embevecidos. Tal era sua erudição. Aparte
de sua erudição, seu coração suspirava sempre
por servir ao pobre e necessitado. Depois da palestra, alguém veio
falar com o swamiji. Esse homem dissera que vinha sofrendo gravemente
de pressão sanguínea e outros problemas porque não
recebia sua pensão há cinco anos. Imediatamente, o swami
telefonou para um funcionário, discutiu o problema, e a situação
foi acalmada imediatamente.
Entre
1946 e 1972, Ranganathananda viajou por mais de cinqüenta países
do mundo—sozinho, sem muitos recursos, e dependendo totalmente de Deus
e do que o acaso lhe pudesse trazer. Foi embaixador espiritual da Índia
para o Ocidente. Penetrou a Cortina de Ferro, enfrentou a Segunda Grande
Guerra, presenciou o pior da violência do povo, suportou adversidades
às centenas.
Como
tinha interesse em casos! Há alguns incidentes interessantes que
mostram como até mesmo países frios tinham buscadores do
conhecimento da Vedanta, e quando Ranganathananda falava, centenas o ouviam
com respeito e admiração. Foi devido à inspiração
de Ranganathananda que muitos centros da Ordem Ramakrishna floresceram
em diferentes partes do mundo.
Desde
sua infância, o Swami fora um grande estudante. Embora não
tivesse muita instrução secular, era um milagre de Deus
devido à sua imensa erudição. Ele foi uma encarnação
do saber. Estudou Sânscrito e Inglês, os Vedas, o Gita, filosofia
Indiana e Ocidental, religião comparada em profundidade. O swami
podia ministrar palestras em muitos idiomas e conversar em tantos mais.
U monge adiantado da Orden Ramakrishna, que havia viajado certa vez com
Ranganathananda, relatou que Ranganathananda jamais desperdiçava
um momento sequer de sua vida. Fosse de trem, ônibus, ou de avião,
ele continuava lendo, tomando nota, e utilizando seu tempo produtivamente.
Tinha
uma coleção imponente de livros pessoais, todos lidos completamente,
e marcados com suas observações encantadoras. Ele supriu
muitas bibliotecas presenteando-as com seus livros pessoais. E tornando-se
monge da grande Ordem de Ramakrishna, Ranganathananda tornou-se naturalmente
também um profundo aspirante espiritual.
A
combinação da força da espiritualidade e da sabedoria
filosófica por excelência tornou Ranganathananda um instrumento
legítimo para o empreendimento de uma missão: aquela de
propagar pelo mundo a gloriosa mensagem dos antigos sábios da Índia.
A missão da Índia era a sua missão. A missão
de Vivekananda era a sua missão—a de despertar o mundo para a espiritualidade.
Foi desta maneira que ele se tornou o embaixador espiritual da Índia
no ocidente, indo de país em país, reunindo pessoas, falando
sobre as glórias da Vedanta, solucionando centenas de problemas,
e inspirando todos a levarem vidas iluminadas. Fossem os Vedas, Upanishads,
Bhagavata, Ramayana, o moderno saber científico, as idéias
de desenvolvimento social, ou qualque outro assunto similar, Ranganathananda
proferia discursos magistrais, que tocavam os corações dos
ouvintes, inspirando-os a levarem vidas maravilhosas.
Eis
um dito em sânscrito: “vidvan sarvatra pujyate”. Este sábio
de conhecimento e iluminação era certamente venerado em
toda parte. Pessoas em países distantes como o Brasil, recordam
com gratidão a inspiração que receberam deste swami
nos idos de 1967. Diz-se que durante seus dias como Secretário
da Missão Ramakrishna, em Nova Deli, personalidades vigorosas como
Jawaharlal Nehru se acocoravam nos gramados da Missão para escutarem
seus discursos arrebatadores. Ranganathananda tinha admiradores de todas
as searas da vida. Há uma famosa declaração de que
Ranganathananda só sabia fazer amigos, e jamais perdeu um deles.
Independentemente
de ser um orador de renome mundial, o swami foi também um grande
escritor. Dentre suas maiores obras destacam-se Message of the Upanishads,
A Pilgrim Looks at the World [2 vols], Bhagavad Gita, Brihadaranyaka Upanishad,
Spiritual Life of the Householder, e tantas mais. Seus livros foram traduzidos
em muitos idiamas, e milhas de cópia foram vendidas. Fora isso,
o swami era também um grande administrador. Trabalhou como secretário
e bibliotecário no centro da Missão Ramakrishna em Rangoon
de 1939 a 1942 e depois como dirigente do Mosteiro e da Missão
Ramakrishna em Karachi de 1942 a 1948, em seguida como dirigente do centro
de Nova Deli até 1962, foi Secretário do Instituto de Cultura
da Missão Ramakrishna de Calcutá em Kolkata por muitos anos,
e dirigiu o centro de Hyderabad por 30 longos anos. Foi
um dos membros do Conselho do Mosteiro e da Missão Ramakrishna
por mais de quarenta anos. Onde quer que servisse, transformava aquele
ashrama num grande centro de saber e espiritualidade. Os centros de Nova
Deli e Hyderabad, por exemplo, mantém-se como exemplos vivos desta
afirmação. Quando a Índia se tornou livre, ele estava
em Karachi, como líder do centro da Missão Ramakrishna lá
existente. A divisão (entre Índia e Paquistão) deteve
totalmente o progresso das atividades da Vedanta em Karachi, e a Missão
teve que ser fechada nesta região. Os swamis tiveram que regressar
para a Índia sob penosas condições. Por todos os
meios, Ranganathananda conseguiu reunir uma grande quantidade de arroz
e enviá-la para as massas empobrecidas. Por toda a sua vida, Ranganathananda
auxiliou de diversas maneiras a um incontável número de
pessoas e e organizações.
Durante
seu longo exercício como Vice Presidente da Ordem, e depois como
Presidente, Swami Ranganathananda inspirou milhares de buscadores espirituais
a levarem vidas espiritualizadas. Ele foi um grande admirador do Swami
Vivekananda, e leu suas Obras Completas pelo menos umas 75 vezes! Era
avesso à fraqueza e a ‘semblantes de autopiedade’. Mesmo perto
dos seus 80 anos ele poderia ser visto jogando volleyball. Assim era o
seu espírito. Verdadeiro sannyasin que era, esquivava-se dos enaltecimentos
e elogios, apesar de merecer muito mais do que lhe dispensavam.
Ranganathananda encarnava por tanto o antigo e eterno espírito
indiano de combinação harmoniosa de vitalidade física
e força mental, profunda intelectualidade e dinamismo espiritual,
intensa praticidade e profundo idealismo. Tais pessoas nem sempre nascem
sobre a esta Terra. Somente a Índia pode produzir semelhantes filhos
que se tornam exemplos vivos de vitalidade espiritual combinado com uma
praticidade ‘bem pé no chão’. Ranganathananda, como todos
sabem, foi um presente de Kerala para o mundo, este estado no qual nasceu
em 15 de Dezembro de 1908. Viveu cada momento de seus 96 anos sobre a
Terra, insuflando vida a todos que encontrou até o fim.
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